Perdi a vontade de escrever. Fiz um origami azul. Olho para a tela, as letras surgem no fundo branco. Com a ponta dos dedos construo as formas que trazem profundos significados. Podem mudar vidas, ensinar, divertir e transformar a realidade. Tanto poder em uma ideia tão simples. Um desenho, uma forma que só depende da vontade de quem a usa. Só depende das intenções de quem as rabisca, ou, como eu, escolhe-as com as pontas dos dedos. Meus textos são vazios, escrevo-os como quem inventa uma história, com sentimentos e situações inventadas. Personagens que não existem na vida real. Uma distorção da realidade, do que é chamado de realidade. Hoje não tenho uma história, nem crônica ou mesmo um pequeno conto. Estou vazio e contemplo apenas as formas na tela. Observo as palavras surgindo diante de mim, impelidas por alguma parte de meu cérebro. Não penso nelas, não imagino sua forma, não procuro dar sentido a uma ideia, nem mesmo seguir alguma direção com o texto. Não enxergo um final, não pensei num começo. O primeiro título foi "Flores de papel". Depois mudei para "Flores e espinhos", apaguei e não me preocupo em encontrar um nome para isso. Liberdade parece expressar bem o que estou fazendo agora. Letras soltas, ainda assim, presas por um significado. Uma sopa de letrinhas com ideias aleatórias que podem ser apenas manifestação do caos. Meu vazio é um lugar bonito. Sem forma, apenas lembranças de sensações. Meu vazio, quando não penso em nada, é uma brisa suave, num lugar quente e vasto. Um chão macio que não está lá e o calor do sol que passa por entre algumas arvores intercalado pelo frescor das sombras. E eu estou correndo incansável. Não há tempo. Nem o passar do tempo. Não há movimento. É o perfeito estático. Enquanto o caos domina no universo, no meu vazio, as coisas simplesmente não são.

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