Contemplo o rosto diante de mim. Suas imperfeições, suas curvas suaves, típicas de um rosto feminino. O sabor do whisky que me faz companhia ocupa todo meu paladar. Meus olhos, porém, não se desviam do rosto. Os olhos castanhos me encaram de tal forma que parecem ler meus pensamentos. Tudo fica cinza. As cores somem, e, ainda sim, estão lá. Vejo tudo em preto e branco, mas, sei exatamente onde estão os olhos castanhos, sei exatamente a cor dos cabelos: loiros. Não me lembro exatamente como cheguei aqui. Não sinto o sabor do whisky. Mesmo assim ele enche meu paladar. A luz branca, forte, realça o contraste entre as sombras e o rosto branco. Posso ouvir meu coração bater, posso ouvir minha respiração. Há um ritmo, uma música no ar. Um som que inspira mistério e euforia. Diante de mim, a mesa, o rosto, as sombras, as imperfeições e os olhos cinza, castanhos. Eles sondam minha alma, meu ser, mentir para eles é mentir para mim mesmo. A lógica não consegue colocar tudo isso num único momento, no mesmo lugar. A física não existe. Sei onde está o chão, está apoiando a mesa. Sei onde está a mesa. Sei que tudo está onde deveria estar. Tudo está em torno dos olhos que me observam. Os olhos que enxergaram um mistério em mim e tentam desvenda-lo. O gelo derrete no meu copo. 49 minutos. É o tempo que o silêncio demora para voltar. 12 é o número de músicas tocando. Olho pela janela e não há estrelas no céu. Olho para o meu copo e vejo uma gota condensada escorrendo, lentamente, em câmera lenta. Evito os olhos que buscam desvendar os segredos de meu ser. Não há como mentir para estes olhos. Não existe máscara que me proteja, nem lugar oculto à sua visão. Eles me conhecem. Ouço um piano. Imagino meus dedos tocando as teclas. Imagino o som que elas produzem. Sinto o ar vibrar com as cordas, sinto a melodia ocupar o lugar todo. A gota escorreu. Não há mais gelo no copo. Nem whisky. Os olhos ainda me encaram. Dessa vez não desvio o olhar. Me aproximo. Olho com a mesma intensidade de volta. Busco a verdade em cada sombra, em cada silhueta. O sabor do whisky, do malte, agridoce. A noite sem estrelas. Os olhos. Como cheguei aqui? Por que estou olhando para estes olhos? Eles estão olhando para mim ou eu estou olhando para eles? A música, não há música. Não há som algum além de minha respiração. A não ser...um ritmo seco, acelerado. Uma gota escorre. Suor em meu rosto. Os olhos, o rosto, a folha de papel, o lápis em cima da mesa...
Apago a luz.

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